Semanário Regionalista Independente
Sexta-feira Maio 29th 2026

“BBC – As Crónicas de TV”

No dia em que a RTP fez anos

Bernardo de Brito e Cunha

NO ÚLTIMO sábado foi dia de São Tomás de Aquino. Isto equivale a dizer que foi dia 7, que foi ainda o dia de aniversário da RTP e, quase consequentemente, que também foi dia de Festival da Canção. É muita coisa junta para um dia só: e só se pode lamentar que o doutor da Igreja, depois de um aparente período de protecção e beneplácito ao festival, o tenha abandonado à sua sorte. Confesso que ainda não percebi se a RTP faz os possíveis para não ganhar o Festival da Eurovisão, esse belo certame, ou se o pretende ganhar ao menos uma vez. A primeira hipótese parece-me a mais provável: faz, regra geral, um embrulho mais ou menos vistoso da coisa, geralmente até garante que os cantores sejam acompanhados por músicos ao vivo e ali em palco, mas depois… a coisa complica-se na parte mais importante. A RTP parece esquecer, todos os anos, que o Festival da Eurovisão é um festival de canções e insiste em enviar para a Europa coisas que muitas vezes não merecem esse nome. Lembram-se do ano passado? Ora aí está.

O FESTIVAL deste ano, como já acontecera noutras ocasiões, foi dividido em duas eliminatórias e uma final, em que competiam as três mais votadas de cada uma delas. E, num breve parêntesis, permito-me citar Marco Horácio no último “Got Talent Portugal” que disse que o melhor da primeira eliminatória fora Joana Teles, a apresentadora, uma graça que só entenderá quem viu. Desta vez a RTP decidiu convidar compositores e autores, mas desconhece-se qual foi o critério de escolha: havia ali muita gente de que nunca ouvi falar, ou então sou eu que tenho estado muito distraído. E depois, parece-me, foram os compositores que terão escolhido quem iria interpretar as suas canções. Basicamente é isto, parece-me. Só que nisto de canções não há uma fórmula e, no que diz respeito à Eurovisão, já vimos vencer o festival canções que andámos a cantar durante meses e anos (lembram-se de “Waterloo”, dos Abba?) mas desde meados dos anos 90 que uma certa falta de harmonia tem reinado. Isto para não falar nos anos mais recentes, em que o festival se abriu aos países de Leste e tudo se complicou na gestão dos votos.

MAS HÁ duas coisas que eu gostava ainda de dizer. Por um lado, que talvez Simone devesse ter resistido à tentação de voltar a um festival, teria sido muito melhor para a memória colectiva que guardamos dela e das canções que interpretou durante tantos anos – o mesmo se aplicará, de resto, embora numa escala menor, a Adelaide Ferreira. E a segunda coisa é que, uma semana depois, dei comigo a trautear o refrão de uma das canções do nosso festival. E parei, espantado, porque quase nada daquilo fizera grande sentido dentro de mim. É certo que me recordo de um dos versos musicais da canção de Miguel Gameiro, a canção vencedora – mas fico-me por aí. Mas há outra de que recordo o refrão completo, a musiquinha inteira, e essa é aquela que foi escrita em colaboração com José Cid. E por aqui se percebe que o homem sabe da poda, sabe o que está a fazer, conhece perfeitamente o caminho para chegar a uma canção vencedora. Não aconteceu desta vez: mas experimentem para o ano pôr 12 das suas canções a concurso, com intérpretes a seu gosto – e o resultado será, no mínimo, audível e, como se diz nestas coisas, “orelhudo”. Que é o que se pretende. Na Eurovisão ninguém nos pede que levemos a 10.ª Sinfonia de Beethoven.

HÁ DEZ ANOS ESCREVIA

«Foi, sem dúvida, um acto de coragem da parte de Fátima Campos Ferreira e da própria RTP ter trazido para uma nova fase do programa “Prós e Contras” o tema da eutanásia. (…) Foram muitos os casos que nos foram apresentados, dois até com ligações em directo. A apresentação do tema, feita por Fátima Campos Ferreira, podia, no entanto, e por melhor que tenha sido a sua intenção, ter evitado contar-nos o fim de dois dos filmes do momento, ambos premiados com Óscares no final do mês de Fevereiro. É evidente que aqueles dois casos, o da jovem boxeur de “Million Dollar Baby – Sonhos Vencidos”, e o (verídico) do espanhol Ramón Sampedro, o tetraplégico que durante 30 anos lutou por aquilo a que chamava “o meu direito de morrer”. Os dois exemplos vinham mesmo a calhar: e se muitos saberiam do desfecho da história de Sampedro – até porque a história foi acompanhada em todo o mundo e em Portugal também , talvez alguns não soubessem como termina a história que fez com que Clint Eastwood ganhasse o Óscar. E como me irrita que me façam isto de contar o fim dos filmes ou dos livros…»

(Esta crónica, por desejo expresso do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)

Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 4062/63 de 13 de Março de 2015.

Leave a Reply