Semanário Regionalista Independente
Segunda-feira Dezembro 11th 2017

“BBC – As Crónicas de TV”

Um médico muito especial

Bernardo de Brito e Cunha

Desde que a série “Anatomia de Grey” desapareceu e êxitos como “House M.D.” ou “ER – Serviço de Urgência” tiveram vidas longuíssimas e um número de séries considerável, que se esperava por uma série de médicos. Neste Outono surgiu um novo drama, “The Good Doctor” (julgo que não tem tradução no canal AXN, que o transmite em simultâneo nas suas plataformas do cabo, infelizmente) que foi criado por David Shore – que já fora o responsável por “House” – e que desta feita se foi basear numa série coreana, que julgo ter o mesmo nome embora, suponho, em coreano. E este Bom Médico é uma série extraordinária? Não me parece que seja esse o adjectivo a utilizar, embora cumpra o papel de preencher esse vazio relativamente a um determinado género televisivo, que quase sempre foi menos sobre a Medicina e mais acerca dos meandros dos bastidores e dos ocupantes de todos aqueles hospitais fictícios.

Nos Estados Unidos, após três semanas de exibição, a série tinha conseguido uma coisa impensável: ser a mais vista e ultrapassar em audiência “A Teoria do Big Bang”, que ocupara aquele lugar tempos a fio – e eu imagino o que deve ser a concorrência neste campo nos Estados Unidos… E, se formos a ver, a premissa desta série é muito simples (embora, para muitos, difícil de acreditar): o médico bom, que se chama Shaun Murphy, é um cirurgião autista que sofre do Síndrome de Savant. Para além de querer comprar um televisor, o que manifesta diversas vezes, todo o resto é falado na linguagem da anatomia e, quando o programa quer chamar a atenção para a sua genialidade, órgãos e veias e glândulas flutuam acima da sua cabeça, como ilustrações tiradas de um compêndio da faculdade de Medicina. Claro que um personagem com estas características tem de ter um protector-defensor, que é o presidente do St. Bonaventure Hospital e que, quando no primeiro episódio tenta convencer a administração do hospital a aceitá-lo como estagiário diz duas coisas fundamentais: primeiro, que “Shaun não é o Rain Man”, numa referência ao filme Encontro de Irmãos, em que o autista era o actor Dustin Hoffman, mas também que Shaun vê as coisas de uma forma que nós, os “normais”, nem sequer julgamos ser possível.

Quanto ao resto, “The Good Doctor” avança de uma forma clássica no género: cada dia traz um novo paciente a precisar de uma intervenção cirúrgica que lhe salve a vida, os médicos lutam entre si por uma questão de estatuto enquanto se namoriscam uns aos outros. No meio disto, Shaun tem um comportamento diferente (não só pela sua condição, mas também porque ficamos a saber que a sua infância foi marcada pela morte do irmão e de um coelho de estimação, e de um pai que nunca percebeu o filho) que tem como resultado uma imensidão de despertadores no seu telefone, um comportamento estranho e errático perante os doentes, antes de chegar àquele ponto em que salva o dia (ou, pelo menos, a crise em causa) e tudo volta a acalmar.

O próprio criador da série, David Shore, disse à “Indiewire”: “Há uma emotividade não escondida e honesta nesta série que eu acho ser muito refrescante, no sentido de que o poderá pôr a chorar sem que se sinta embaraçado.” A crítica tem olhado para a série de uma outra maneira, com o Rotten Tomatoes a dar-lhe apenas 43% e Maureen Ryan, que escreve para a “Variety”, a chamar-lhe “despropositadamente trágica” e “uma cópia de ‘Anatomia de Grey’ de terceira ordem”.

O principal problema, para mim, é que poucos serão os que compreendem como funciona um autista: e tudo aquilo que Shaun vê, os gráficos anatómicos que ele visualiza no espaço, encontrando aí a solução dos problemas, parece-nos, aos “normais”, imaginação a mais. E eu continuo a achar os métodos do Dr. House e sua equipa, de puro raciocínio e conhecimento clínico, inultrapassáveis. Então porque será que não perco um episódio de “The Good Doctor”?

HÁ DEZ ANOS ESCREVIA

«O “Portugal em Directo”, apresentado por Dina Aguiar e sua equipa, que mergulha no país desconhecido e nos revela, não a inauguração de Sócrates, mas a obra de um presidente de uma pequena Junta de Freguesia perdida algures por aí. Não o aumento do preço do barril de petróleo, que é coisa que não temos, mas os passos que, um pouco por todo o lado, se estão a dar no campo das energias alternativas. Nem, tão-pouco, as grandes notícias do futebol nacional, mas antes os acidentes com as balizas que caem e magoam os pequenos atletas praticantes. O rei de Espanha não tem ali cabidela, naturalmente, nem sequer Hugo Chávez: mas têm presença constante os pequenos e verdadeiros construtores do país.»

(Esta crónica, por desejo expresso do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)

Crónica publicada no Jornal de Sintra, edição de 8 de Dezembro de 2017

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