Semanário Regionalista Independente
Sexta-feira Junho 22nd 2018

“BBC – As Crónicas de TV”

Uma história portuguesa, com certeza

Bernardo de Brito e Cunha

Com alguma irregularidade, a RTP começou a transmitir em Setembro a série “País Irmão”: tanta, essa irregularidade, que só no próximo dia 15 (pelas 22h30) irá para o ar o 15.º episódio. A série, que foi escrita a três mãos (ou seis, mas já lá vamos) tem por base uma premissa relativamente simples: surge de repente um daqueles “casos que não se pode mencionar ou que convém que não venham a público, blá blá, blá blá” e que, adivinha-se à légua, será uma ilegalidade qualquer que envolve, como é hábito, muito dinheiro e gente graúda e poderosa do Governo. O escândalo poderá rebentar a qualquer momento e, para evitar que o escândalo tome conta do país, a ministra da Cultura tem uma ideia: vamos distrair a opinião pública, vamos fazer uma novela, uma grande novela, e vamos fazê-la com quem sabe, os brasileiros. Será então uma espécie de “Gabriela” ou de “Roque Santeiro” – ou ainda maior. E é assim que começa “País Irmão”, com a história da rodagem da novela “Corte Tropical” e das historinhas que ligam (ou desligam) os que nela participam.

Mas esta “premissa relativamente simples”, como escrevi acima, não é totalmente ficção. Em Maio de 2000 (e lembrar-se-ão disto os adeptos do Sporting, que nesse ano se tornaria campeão contra o Salgueiros, quebrando um jejum de 18 anos) Fernando Gomes era Ministro da Administração Interna e tutelava, entre outras áreas, o Desporto. As coisas estavam ligeiramente muitíssimo complicadas no gabinete de Fernando Gomes e o jogo contra o Salgueiros tinha um óptimo ingrediente de distracção: o preço dos bilhetes. Foi uma grande algazarra na altura, o Salgueiros jogava em casa e aproveitou-se do momento para rendibilizar ao máximo os 5.780 ingressos que colocou à venda: os bilhetes mais baratos custavam o equivalente a cem euros, 20 contos na altura. O tema entreteve durante uma semana, o futebol é sempre um óptimo assunto para distrair nos dias maus de uma administração. O governo de Guterres estava a passar mais ou menos por isso e Fernando Gomes estava tremido. O ministro aguentou a semana, mas não sobreviveu ao Verão. Foi exonerado do seu cargo a 14 de Setembro do mesmo ano.

A ideia inicial foi de Tiago R. Santos e João Tordo, a que depois, quando Nuno Artur Silva, administrador da RTP, deu luz verde ao projecto, se juntou Hugo Gonçalves. Dos três autores, Tiago é o que tem mais experiência de guionismo (de filmes como “Call Girl” e de séries como “Jornalistas”, “Liberdade 21” ou “Conta-me como Foi”); João Tordo, embora seja mais conhecido pelos seus romances também já trabalhou para televisão (por exemplo, em “Pai à Força” ou “Cidade Despida”); para Hugo Gonçalves, jornalista e escritor, foi uma estreia. Amigos há mais de 15 anos encararam esta como mais uma aventura em conjunto: no ano de 2016, enquanto a selecção nacional de futebol jogava para se vir a sagrar campeã da Europa, os três juntaram-se numa casa a escrever os primeiros diálogos de “País Irmão” nos intervalos dos jogos. Traziam consigo as vivências de uma geração que viu muitas telenovelas brasileiras na infância e que só descobriu a Internet quase na idade adulta, e as memórias de séries tão diferentes como “Quem Sai aos Seus”, “Sopranos”, ou “Sete Palmos de Terra”, entre muitas outras. E tinham uma determinação: “Queríamos fazer uma coisa diferente do que se vê em televisão em Portugal”, explicou João Tordo. “Uma série autoral, que fosse profundamente nossa.”

Mas aí, malhas que o mundo da televisão tece!, como seria possível combater as outras, as novelas da concorrência, as das coisas mirabolantes e das histórias de enganos e traições, as das sagas de amores não correspondidos ou desencontrados, como seria possível que se preferisse uma coisa “mais séria” e feita com uma entrega e um profissionalismo notáveis? Não era: e receio que o público (a série teve cerca de 435,200 espectadores no episódio de estreia) tenha “fugido” logo a seguir para uma das telenovelas dos outros canais. Se é que não migraram mesmo para as chamadas “novelas da vida real”…

HÁ DEZ ANOS ESCREVIA

«A RTP decidiu fazer coisa diferente na noite de fim de ano: pôs os Gato Fedorento, ao vivo, no Pavilhão Atlântico. E encheu-o, com oito mil pessoas a pagarem 10 euros cada uma. E os 80 mil que daí resultaram – quase tanto como o prémio final do programa “Casamento de Sonho” da concorrência – tiveram um destinatário bem mais necessitado, por mais precisado que estivesse o casalinho vencedor: foram para a Secção de Pediatria do IPO, certamente porque “o melhor do mundo são as crianças”, como escreveu Pessoa.»

(Esta crónica, por desejo expresso do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)

Crónica publicada no Jornal de Sintra, edição de 12 de Janeiro de 2018

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