Semanário Regionalista Independente
Segunda-feira Dezembro 17th 2018

“BBC – As Crónicas de TV”

A super-ama que ninguém quer

Bernardo de Brito e Cunha

Costumamos dizer, quando nos nasce um filho e nos vemos confrontados com uma realidade completamente nova, que a chatice é as crianças não virem com um livro de instruções. E não vêm porque todas elas são diferentes: era a mesma coisa, mal comparada, que um carro da marca Volkswagen trazer um manual da Volvo ou da Ferrari. Grande parte dos pais (e das mães, naturalmente) estão disponíveis para entender cada criança como um cosmo, um universo autónomo, ao passo que outros acham que cada filho é uma cópia fiel dos pais: e se eu sou uma pessoa decente (e a mãe da criança também) porque é que o nosso filho há-de ser um refilão e um quase-meliante? Porque a hereditariedade e a genética têm papéis importantes mas não são tudo.

Uma criança, hoje, enfrenta desafios que são completamente diferentes dos de há 30 ou 40 anos: a tecnologia avançou brutalmente e o próprio mundo revelou ser um local bem mais perigoso para os mais pequenos. Daí a que os pedopsiquiatras ou (pedo) psicólogos – ao que parece designados por psicólogos da educação – tenham visto o seu trabalho aumentar de forma exponencial. Hoje, uma criança que tenha um comportamento fora da norma (quem a definiu, se cada criança é um mundo diferente de todas as outras?) já sabe que tem um destino marcado: o psicólogo. E se alguns casos precisarão mesmo dessa visita, parece-me (por experiência) que a maioria não necessita de nada disso. Mas, para todos os efeitos, os problemas de uma criança devem, parece-me, ser resolvidos entre ela e os pais – e, em casos extremos – o tal psicólogo. Mas, mesmo nesta última hipótese (e volto a falar por experiência própria) nas visitas ao psicólogo nenhum dos pais entra.

Foi esta última “garantia” que a SIC violou quando pôs no ar o programa “SuperNanny”, em que uma “super ama” (que é uma psicóloga da educação com nome na praça) vai à casa da família da criança que precisa, eventualmente, de acompanhamento. Até ao momento foram para o ar dois programas e, na minha opinião, o grande problema das crianças em questão é apenas uma questão de falta de educação. Ao que tudo deixa supor é um caso clássico de duas famílias (uma delas monoparental) que, como se costuma dizer, “perderam a mão” sobre as crianças – e não há, nesta frase, qualquer alusão directa ou indirecta a castigos corporais.

A SIC cometeu diversos erros crassos: fez com que as famílias se inscrevessem para ter o apoio de uma psicóloga, mas as crianças não ficaram a sós com esta última; como se a “algazarra” em cada uma das casas não fosse já bastante, há ainda um operador de câmara que acompanha todos os desenvolvimentos e evoluções; e, muito naturalmente, o pessoal da SIC deveria ainda contar com a presença de técnicos de iluminação, de som, de videotape, etc. A parafernália completa, portanto, numa situação que se desejava o mais calma possível.

Em resumo, aquilo que a SIC fez foi encenar um “reality show” mascarado de boas intenções e cujos principais intervenientes são crianças. É certo que a “publicidade”, a onda de protestos que nasceu da primeira emissão fez com que o canal de Carnaxide batesse toda a concorrência em termos de audiência – mas as audiências não são tudo. Tanto que o programa “SuperNanny” já não tem a Corine de Farme como patrocinadora: “O tumulto social em torno do mesmo não é compatível nem com a imagem da nossa empresa, nem com os nossos objectivos comerciais”, disse uma responsável daquela empresa. E o segundo episódio já foi para o ar sem qualquer patrocínio… O problema é que os patrocínios dão dinheiro e as audiências não.

HÁ DEZ ANOS ESCREVIA

«Terminou a “Operação Triunfo”. A vencedora, pelo voto popular, foi a Vânia – quando, parece-me, a coisa tinha uma outra direcção. Não é que a Vânia não tenha uma belíssima voz: mas havia ali concorrentes de voz e interpretações, ao longo do tempo, mais consistentes. A questão nem sequer é esta, confessemo-lo: isto teria importância se a “Operação Triunfo” fosse uma catapulta, e nós todos sabemos que não é. A prova disso é o Rui, que canta no “Dança Comigo”; ou o Filipe, que acabou em repórter do “Só Visto”, ou ainda o David Ripado, que canta umas coisas num programa da RTP. Ninguém saiu dali com um grande êxito de vendas por ter gravado um CD – só por ter feitos uns trabalhinhos à parte. Esse é um dos lados lamentáveis da “Operação Triunfo”, talvez o único: mas suficientemente grande. É que, no fundo, parece-me que tanto a Vânia, como os outros, vão ali um bocadinho ao engano.»

(Esta crónica, por desejo expresso do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)

Crónica publicada no Jornal de Sintra, edição de 26 de Janeiro de 2018

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