Semanário Regionalista Independente
Sábado Setembro 21st 2019

“BBC – As Crónicas de TV”

Uma viagem ao Portugal profundo

Bernardo de Brito e Cunha

Estive cerca de dez dias no Alentejo, a acompanhar quem precisava de descansar porque eu, já se sabe, faço muito pouco – e descanso, não o mereço. Já vos devo, de resto, ter contado esta história das minhas aventuras no mundo da TDT, a televisão digital terrestre. O que existe, para quem nunca tenha tido contacto com esta realidade do Portugal profundo, é uma caixinha que nos dá acesso a sete canais. Caramba!, sete canais! Não sei exactamente porquê, mas quem mais contribui para este maravilhoso e extenso pacote de canais de televisão é a RTP: por causa dela temos a RTP1, a RTP2, a RTP3 (o único canal quase exclusivamente preenchido por notícias da TDT), e a RTP Memória, a que se juntam depois a SIC e a TVI. Sem esquecer, para rematar, que o “pacotinho” também inclui a ARTV, o chamado Canal Parlamento. E em matéria de televisão é o que temos. Pode parecer pouco, assim à primeira vista, mas na realidade é bastante reconfortante, o tal pacotinho de canais: imaginem que incluíam na TDT o CMTV, e o Portugal profundo começava de repente a levar com a Maya e Nuno Eiró a aprenderem a fazer “Gaspacho com prosa” e “Salada do mineiro” (coisas que no Alentejo ninguém conhece), ou com Marta Rodrigues, autora do blogue “Birras em Directo”, a partilhar como vive o dia a dia com os três filhos… E nem quero falar nas telenovelas do CMTV ou nas investigações de Tânia Laranjo!

“O Nosso Cônsul em Havana”, de que já aqui falei, é uma série ficcional inspirada livremente no período em que Eça de Queiroz foi Cônsul de Portugal em Cuba, à época colónia espanhola. O que acho estranho, no texto construído por António Torrado e José Fanha, é que se tenham levado quase três dos 13 episódios da série a falar do desaparecimento do malão do nosso cônsul. Caramba, bem sei que Eça escreveu pouco enquanto esteve em Havana – “Singularidades de Uma Rapariga Loira” foi uma das excepções – mas já não se podia com as quase apoplexias de Elmano Sancho porque o seu baú de viagem não aparecia. Bem sei que tinha lá toda a sua roupa e eu próprio já fiquei sem mala numa viagem: se eu pude arranjar alguma roupa será que o cônsul de Portugal não poderia ter feito o mesmo? Ou, como Eça se queixou tanta vez, o dinheiro da diplomacia era mesmo muitíssimo escasso? Se assim for, dou o braço a torcer.

Acho desmesurado o furor informativo que se gerou em torno de João Félix, desde que se transferiu do Benfica para o Atlético de Madrid: não há peça informativa que não mostre o rapaz, ora no Museu do Prado, ora em campo, ou ainda a posar (perdoem-me se não escrevo “pousar” como muitos camaradas meus) para milhentas câmaras. Dir-me-ão que é o preço a pagar: mas não me recordo de tanto alarido assim em relação a Ronaldo – a não ser, talvez, quando trocou o Manchester United pelo Real Madrid e vejam, abaixo, o que escrevi há 10 anos. E agora, já o sabemos, vamos acompanhar a par e passo cada jogo do Atlético, cada canelada que Félix levar (“Malandros!”), cada golo que eventualmente venha a marcar. E que os marque é o que lhe desejo. Mas o problema é que se já vi umas 200 vezes João Félix no Prado, outras tantas no campo e talvez ainda mais a ser fotografado, vi muito poucas Ricardo Salgado – talvez só umas duas – a dizer que nunca corrompeu ninguém… E voltei a lembrar-me de George Orwell, quando disse que “Jornalismo é publicar aquilo que alguém não quer que se publique. Tudo o resto é publicidade.”

E ainda não vos disse que a minha querida “Candice Renoir” regressou! Casada, mas aquilo não deve durar muito. Para a próxima conto-vos tudo!

HÁ DEZ ANOS ESCREVIA

«Mas tivemos Ronaldo em Madrid, a propósito do que a SIC decidiu entrevistar diversas misses madrilenas para saber do seu ‘encanto’ ou não pela presença do rapaz, e do passo mais ousado da RTP, que decidiu, na mesma Madrid, entrevistar os homossexuais da movida madrilena. Foram horas disto. E cito Manuel Carvalho, do Público, que escreveu: “O dia de hoje é um manifesto da capacidade do Real Madrid em vender a sua imagem ao mundo, mas é também a prova de acefalia das televisões que vêem nesse negócio uma forma de lucrarem à custa da alarve disponibilidade das multidões para perderem minutos, horas das suas vidas a seguir de perto qualquer banalidade quotidiana da vida de um ídolo.”»

(Esta crónica, por desejo expresso do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)

Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 4267 de 12 de julho de 2019

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