Semanário Regionalista Independente
Quinta-feira Abril 16th 2026

“BBC – As Crónicas de TV”

Coisas da RTP que não compreendo

Bernardo de Brito e Cunha

EU NÃO ENTENDO a RTP. Primeiro, foi o terem ido desencantar aquela brilhante sequela da série “Dallas”, conseguindo os produtores a façanha de terem reunido diversos actores da série original. Na altura em que a RTP estreou a série por cá, já Larry Hagman, o vígaro JR – provavelmente o vígaro mais vigarista de todos os carteis de petróleo dos Estados Unidos – tinha falecido, na vida real. E os episódios lá se foram sucedendo, com a mesmíssima trama que nos ocupou durante anos a fio, desde o final dos anos 70. Até ao dia, que já nem sei precisar qual foi, tal a falta que lhe senti, em que desapareceu dos ecrãs. Mas devia ter fixado a data: porque ela assinala o dia em que menos um enlatado de telelixo tóxico desapareceu.

DEVIA TER FICADO contente, mas a RTP mal me deu tempo para ir encher os balões e fazer uma festa. Para ocupar o lugar de “Dallas” a RTP foi buscar uma outra série, de seu nome “Arrow” (que ninguém se deu ao trabalho de traduzir para “Flecha”) e que é mais uma banda desenhada transposta para o ecrã. Para o ecrã pequenino, e até esse já foi um favor grande que lhe fizeram, diga-se em abono da verdade. Um jovem, filho de um milionário, viajava com o pai num barco que se afunda. Morrem todos menos ele, claro está, ou lá se ia a série, e durante cinco anos vive numa ilha de onde consegue regressar. E volta decidido a, com a ajuda de um livro onde o pai registara todos os nomes dos meliantes que encontrara na vida, limpar o mundo daquela gente. É um vingador rico (como acontece com Batman) e lá vai riscando os nomes da agenda. Principalmente com arco e flecha, que não me lembro que algum super-heroi tenha usado. Como se percebe, é uma coisa da treta, rigorosamente ao mesmo nível de “Dallas”. Não avançámos um centímetro…

FORAM JÁ MUITOS os domingos em que, para fazer horas para o “Jornal da Tarde”, a RTP exibe um pequeno sketch pseudo-humorístico. O grande problema é que, domingo após domingo, eu tenho assistido com algum desespero ao mesmíssimo sketch, aquele que se passa numa sala de partos e onde o marido da grávida quer à viva força filmar o nascimento, complicando o trabalho do “pessoal clínico”. Por amor de Deus! Eu já vi aquela mulher (que, para mais, até é um homem) dar à luz uma meia dúzia de vezes! Não haverá maneira de destruir a cassete?

E À FALTA DE MELHOR, pegou-se n’”A Mulher do Senhor Ministro” e Lola Rocha, 20 anos depois, tem um pequeno negócio familiar de catering, obrigando Américo Rocha (Vítor de Sousa) a ficar o dia inteiro na cozinha. Lola já abdicou do sonho de ser a primeira-dama que Portugal nunca teve, só não se conforma com o facto de Rocha ser o único ex-ministro só com uma reforma, por isso obriga-o a passar o dia a esticar massa. Os dias pacatos dos Rocha são subitamente abalados por uma inesperada notícia, publicada na capa da revista “TV 27 Dias”, numa artimanha montada por Elias Garcia, um assessor governamental com a mania que sabe falar inglês, e de Caetana A. Lapa, uma jornalista do social com aspirações a um “job for the girl” num ministério qualquer. Para espanto de todos – sobretudo de Rocha -, descobre-se que Lola tem um filho, fruto de uma fugaz ligação na adolescência, e que ele já não se encontra nos Estados Unidos, para onde fora mandado, nos braços de uma prima emigrante, mas sim em Portugal. Esse filho chama-se António Augusto de Aguiar (Manuel Marques) e é, nada mais, nada menos, do que o ministro dos Assuntos Internos, Externos, Parlamentares e Afins. Ana Bola assume assim, com todo o fervor, o seu cargo de “Mãe do Senhor Ministro”. Mas com umas graças já muito batidas, excluindo o pormenor de ministro e assessores terem nomes de ruas…

HÁ DEZ ANOS ESCREVIA
«Carlos Fino esteve três meses no Iraque, juntamente com o operador de câmara Nuno Patrício. Regressou há poucos dias, teve direito a reportagem no aeroporto – completamente merecida, de resto, e nessa altura, ao descrever aqueles tempos passados em Bagdad com Nuno Patrício, teve uma frase curiosa, para os sintetizar: “Foi como um casamento – com muita discussão e nada de sexo.” Mais tarde, o jornalista seria notícia e foi entrevistado na RTP, por Judite de Sousa, num programa a que foi dado o nome de “O Testemunho do Repórter”. Justificava-se plenamente ouvir, sem ser através do videofone, o jornalista que em primeiro lugar dera a notícia do ataque da coligação anglo-americana à capital do Iraque. (…) Não deixou de ser uma surpresa que Carlos Fino tenha confessado que “a minha profissão é ir aos sítios onde as coisas acontecem. Mas nunca vou a correr, nunca peço para ir, vou sempre com algum constrangimento, custa-me a partir, a arrancar-me à força da gravidade e das raízes do quotidiano. Eu tenho mais propensão para a estabilidade do que para a agitação.”»
(Este bloco respeita a grafia em uso no ano em que foi escrito.)

Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 3979 de 3 de Maio de 2013

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