Semanário Regionalista Independente
Quinta-feira Abril 16th 2026

“BBC – As Crónicas de TV”

Êxito e qualidade com tratos de polé

Bernardo de Brito e Cunha

QUE ME DESCULPEM todos aqueles a quem venho aborrecendo com as minhas frequentes referências à novela “Avenida Brasil”, mas vou falar nela de novo. Ou melhor, vou falar daquilo que a SIC tem feito à novela ou, se preferirmos, à versão que tem apresentado dela. E vou falar disso depois de ter tido acesso à versão “original” da Globo. Estranho várias coisas: por exemplo, que na altura em que escrevo, a SIC vá transmitir o episódio 191 – quando o original tem apenas 179 e ainda muita água há-de correr… A grande questão é que a SIC anda a fazer render o peixe: quando no Brasil cada episódio teve, em média, 54 minutos de tempo útil (não conto as cenas do capítulo anterior, nem o genérico), por cá não passa dos 35 – com as últimas cenas, as seguintes e o genérico. E como há uma grossa fatia que sobra para o dia seguinte, essa é a razão por que, por cá, a novela nunca termine nas famosas imagens congeladas que foram uma das marcas da novela e que correspondem a um momento de intensidade ou suspense para uma das personagens: a imagem pára, perde a cor e ali fica uns segundos. O que é curioso é que a página da novela, no site da SIC, seja ilustrada com essas imagens.

QUE FIZERAM mais os brasileiros? Esta coisa simples que é não haver um local temporal predefinido para a entrada do genérico inicial. Acontece quando tem de acontecer, quando há um novo momento de tensão ou suspense e isso varia, como é óbvio. E, na versão original, o genérico entra geralmente a partir dos oito minutos, mas episódios há em que surge aos 10, aos 12 e, imagine-se!, por vezes até aos 18! É que há narrativas (como agora soe dizer-se) que não podem – não podem e não devem – ser truncadas com um genérico.

TRADICIONALMENTE, as novelas realistas da Globo, pelo menos as do horário nobre, ocuparam-se dos dilemas da classe média ou dos jogos de poder dos endinheirados: e aí, os núcleos mais comuns sempre foram o cómico e o dos “suburbanos”. Com “Avenida Brasil” e “Cheias de Charme”, que ocuparam no Brasil respectivamente as faixas das 19 e das 21 horas na Globo, a situação alterou-se. Enquanto “Cheias de Charme”, de Filipe Miguez e Izabel Oliveira, é protagonizada por empregadas domésticas e cantores de eletroforró e sertanejo universitário, “Avenida Brasil”, de João Emanuel Carneiro, tem 79 porcento das suas personagens dividida entre jogadores de futebol e cabeleireiras, com os pés firmemente plantados no quotidiano da classe C – a “nova classe média”.
Na história da Globo, é possível encontrar alguns (poucos) casos de trama com perfil semelhante. “Bandeira 2” (1971), de Dias Gomes, foi ambientada no bairro carioca de Ramos, e “Uma Rosa com Amor” (1972) passava-se num cortiço. “Dona Xepa” (1977) tinha uma feirante como protagonista. O perfil das personagens de “Avenida Brasil”, no entanto, é inédito entre as novelas das nove dos últimos dez anos. Isso forçou cenografistas, figurinistas e produtores da emissora a pensar de forma diferente. O calçadão do Leblon, a bossa nova de João Gilberto e os restaurantes finos têm dado lugar aos diálogos no banco do bar do Silas, ao churrasquinho no passeio e à combinação de pagode, forró e tecnobrega. As casas de personagens centrais como Carminha (Adriana Esteves), em “Avenida Brasil”, primam por uma ostentação exagerada não necessariamente alinhada com o bom gosto clássico.

PARTE DA AUDIÊNCIA sentiu-se incomodada. Mas seria exagero dizer que a Globo traiu a linguagem que depurou ao longo de décadas. Ao contrário do que afirmou Silvio de Abreu, quando disse que actualmente as novelas demoravam a decolar porque a classe C tem raciocínio lento, “Avenida Brasil” começou com uma trama extremamente ágil e não dispensa o comentário social que sempre marcou as melhores tramas do horário. É claro que há cálculo nessa aposta até agora bem-sucedida da Globo. A emissora está atenta a uma oportunidade de mercado. Nos últimos sete anos, 40 milhões de pessoas ascenderam das classes D e E para a C. Um público consumidor que ninguém quer perder. E o meio publicitário está ávido de canais para estabelecer a comunicação entre os seus clientes e a classe C. Por cá e à SIC, isto tem passado bastante ao lado…

HÁ DEZ ANOS ESCREVIA
«A Globo poderia ter tido um pouco mais de cuidado com a novela “Quinto dos Infernos”. Nomeadamente ao nível da língua falada pelas personagens – mas talvez a Globo tenha ficado “escaldada” com o resultado conseguido por “Os Maias”, em que o português o era mesmo mas as audiências muito fracas. No caso de “O Quinto dos Infernos”, apesar de termos achado graça à trama, a língua que ouvimos era uma coisa dramática. Para começar, todos falam o mesmo português – portugueses e brasileiros, nobres e pobres, cultos e incultos, escravos e cavalariços. Não se trata das misturas de “você” com “tu”, por exemplo, ou de concordância de alguns particípios, como era de lei nos tempos idos.»
(Esta crónica, por desejo do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)

Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 3987 de 28 de Junho de 2013

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