José Jorge Letria
Foi no dia 26 de Fevereiro de 1815 que Napoleão, imperador em fim de ciclo histórico, se evadiu da ilha de Elba , onde cumpria um tempo de exílio imposto pelas forças vencedoras , entrando em Paris, com um projecto beligerante, ceeca de um mês depois. Nessa altura Luís XVIII põe-se em fuga e Napoleão Bonaparte reassume a sua condição imperial, passando durante 100 dias pelo poder até à trágica batalha de Waterloo que lhe abrirá as portas para um novo e definitivo exílio em Santa Helena que coincidirá também com o seu declínio físico e morte.
É inquestionável que o regresso de Napoleão a Paris desencadeia uma dinâmica de esperança e combatividade nas forças armadas, o que leva o imperador a fazer as contas inevitáveis. Ele sabia que ingleses e prussianos depressa se organizariam para evitar que ele reassumisse o seu projecto invasivo que mergulharia a Europa numa nova e prolongada fase de convulsão, confronto e grande incerteza política e militar. É preciso agir depressa, congregar forças, encontrar os comandos certos, o acervo de armamento necessário e partir para o combate. O tempo foi adverso ao imperador. Parte dos seus marechais e generais ou estavam velhos e doentes ou haviam alinhado com Luís XVII. Massena envelhecera bastante e, perante este quadro, aceita Ney, em detrimento de Murat. É com este quadro de comando que irá partir para a batalha 18 de Junho de 1815, naquele que seria o derradeiro passo de uma alucinante carreira militar e política.
Em escassas 10 semanas, o imperador consegue reunir, devidamente mobilizado, um exército de 124 mil homens. Por seu turno, as forças opositoras mobilizam 106 mil homens sob o comando do duque e marechal Wellington, que se instalam a pouco mais de uma dezena de quilómetros de Bruxelas, capital de um país politicamente alinhado com as forças antagónicas a Napoleão. Às tropas de Wellington juntam-se 117 mil prussianos de Blucher e cerca de 210 mil homens de Schwarzenberg. Estes exércitos tinham percursos diferentes a realizar para se juntarem no campo de batalha, o que poderia ter dado uma importante oportunidade a um génio militar como Napoleão, inequívoco vencedor de grandes batalhas nas mais adversas condições geográficas, climatéricas e militares, designadamente na Rússia.
Poeta da acção, como muitos lhe chamaram, Napoleão, tenta evitar as forças aliadas, procurando condições para as vencer separadamente. O imperador tem o desejo inadiável de enfrentar as tropas de Wellington e de as vencer, até por saber que os outros exércitos aliados tudo farão para se juntarem e multiplicarem as suas forças. E isso deve ser evitado a todo o custo. Disso depende o triunfo napoleónico.
O marechal Wellington, com sabedoria e calma gere o tempo e escolhe o terreno do confronto final. Os franceses, comandados por Grouchy, não conseguem evitar a junção das tropas prussianas com as inglesas. O quadro torna-se muito desfavorável a Napoleão e ao seu forte e experiente efectivo militar. Wellington consegue dar tempo de descanso aos seus homens e aproveitar bem as desfavoráveis condições atmosféricas que sujeitam as tropas em geral as chuvas diluvianas dificultando consideravelmente a operação defensiva dos franceses.
Perto das 11.30 do dia 18, Napoleão, depois de um inevitável adiamento de duas horas para reduzir o grau de humidade que deixou o terreno lamacento e perigoso, manda atacar a direita aliada. Perto das 13.30, Napoleão ordena um ataque frontal aos ingleses que conseguem evitar o forte ataque da artilharia francesa. Napoleão usa a cavalaria sem contudo conseguir romper o núcleo central das forças inimigas. Apesar da alternância de movimentações de novos recursos e expedientes ofensivos, Napoleão verá fracassarem todas as tentativas e as suas tropas desagregar-se-ão numa debandada precipitada, tentando evitar um real e inevitável massacre. A batalha estava perdida e, com ela, o poder.
Depois Napoleão partirá exilado para a ilha de Santa Helena, onde acabará os seus dias, sem que se saiba ao certo se envenenado ou vítima de um cancro no estômago que muito o fez sofrer, no meio da solidão e do esquecimento.
Pensando hoje em Napoleão, na sua intensa e dramática passagem pelo poder, não podemos deixar de ter presentes os muitos livros e textos de análise histórica que a comemoração dos 200 anos de Waterloo suscitaram. Um dos mais interessantes é “Le Mal Napoleonién”, do ex-Primeiro-Ministro Lionel Jospin, que, sem querer mexer na matéria palpitante do mito, não revela grande simpatia política e pessoal por este homem de génio que viu o exercício do poder e o domínio da Europa como a condição básica da sua entrada na História e da conquista da posteridade, embora soubesse que lidava com forças, vontades e energias que lhe foram tantas vezes adversas.
Embora a comparação possa ser excessiva e abusiva, Napoleão quis, como Hitler, dominar a Europa com a esperança de dominar o mundo, embora fossem diversas as suas naturezas e visões do Homem e da vida. Ambos morreram de forma trágica depois de terem causado milhões de mortos e uma incerteza trágica que mudou o destino da Europa, desta Europa nervosa que hoje, entre a crise grega e o desespero da Ucrânia ouve inquieta as palavras do papa Francisco quando fala de uma guerra que, passo a passo, pode estar iminente. Dois séculos depois, a tragédia napoleónica continua a fazer-nos pensar no futuro incerto e sombrio deste continente que é o nosso e pode não acabar.
Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 4078/79 de 3 de Julho de 2015

