José Afonso e Millôr Fernandes: dois génios livres
José Jorge Letria
Quem ler o título desta crónica há-de interrogar-se sobre aquilo que liga José Afonso e Millôr Fer¬nan¬des, um poeta e notável cantautor, desa¬parecido há 25 anos, e o outro um extraor¬dinário humorista, dramaturgo e filósofo da existência e do quotidiano agora falecido. Para mim, essa res¬posta é simples: foram dois génios livres, dois grandes criadores que nunca hipotecaram a sua liberdade ao poder, à bajulação ou ao jogo mesquinho das conveniências e dos interesses.
Neste momento, corre uma petição lançada pela Associação José Afonso, que será dirigida ao presidente da Câmara de Lisboa, com o objectivo de garantir a construção na capital do país de um monumento que celebre e consagre, na pere¬nidade dos materiais que o tempo não corrompe, a gran¬de¬za de uma obra que nos engrandece e responsabiliza perante o futuro. O autor de “Grândola, Vila Morena” merece essa forma de reconhecimento e muitas outras, porque a sua obra musical e poética não se esgota no acervo das canções mais combativas e revolucionários, sendo muito maior e mais importante do que isso, pela forma como fez rupturas com as formas de expressão musical do passado e abriu caminhos para o que viria a ser o melhor da música portu¬guesa das décadas de 60, 70 e 80 do século XX, influenciado sucessivas gerações de criadores e intérpretes, até hoje e no futuro.
Por seu turno, Millôr Fernandes, que leio e releio com fre¬quên¬¬cia e sempre renovado prazer, designadamente no monumental “Millôr Definitivo-a Bíblia do Caos”, que reúne 5299 aforismos, frases e pensamentos daquele que não se esgota no rótulo de humorista, já que foi também drama¬turgo, pensador e notável cronista e autor de geniais ficções breves.
Fundador do “Pasquim”, figura destacada da “Veja”, de que foi duas vezes afastado, Millôr foi de tudo um pouco: argumentista, tradutor, cartoonista, ilustrador actor e principalmente um extraordinário humorista que nunca aceitou usar o humor para se transformar em “vedeta” publicitária, expediente hoje na moda, pois tinha uma ética, uma visão do mundo e da vida que não pactuavam com esse jogo em que as águas se misturam e o talento se conspurca e esbate.
Descobri Millôr Fernandes na adolescência, porque o meu pai comprava o “Diário Popular”, onde o humorista man¬tinha uma página semanal de tanta qualidade e abrangência em relação ao público que era capaz de unir gerações e dar a sensação, num país sob regime ditatorial, como era o caso de Portugal, de que era possível rir a bom rir sem se ficar sujeito a nenhuma forma de repressão. Millôr nunca gostou de ditadores, tanto no Brasil como em Portugal, e mesmo políticos em democracia deram-se mal com a liberdade irreprimível do seu humor libertário e acutilante. Mas Millôr foi mais do que isso. Muitas das suas frases aforísticas são verdadeiras incursões do autor no domínio da filosofia, já que falam das grandes questões da existência, a um nível do qual talvez só Woody Allen consiga por vezes aproximar-se.
Logo após o 25 de Abril, vi no Teatro Villaret o seu “Liber¬dade, Liberdade”, com encenação do luso-brasileiro Luís de Lima, e descobri outra faceta do seu enorme talento criador. Anos mais tarde, já no princípio da década de 90 do século passado, vi-o de muito perto na Bienal do Livro de São Paulo, onde estive como escritor, mas confesso que a minha inibição me impediu de me aproximar dele e de lhe declarar a minha admiração pela sua obra magistral e inconfundível, até porque sabia que ele não era muito dado a convívios de circunstância, a dar entrevistas e a alinhar na feira de vaidades do mundo literário-editorial. Millôr deixou-nos agora, já a caminho dos 90 anos, legando-nos, a todos nós seus leitores de décadas, uma obra que se mantém viva, pujante, actual e luminosa. Só por isso, Millôr já tinha conquistado em vida a merecida imortalidade.
Aqui se evocam, pois, dois grandes criadores apaixonados pela liberdade: José Afonso e Millôr Fernandes. Dois homens livres e grandes que eu suponho que nunca chegaram a encontrar-se nas andanças desta vida, em Portugal ou no Brasil. Talvez agora se encontrem em qualquer outro lugar, usando um idioma comum. Nunca se sabe.
Crónica publicada no Jornal de Sintra, página 7 da edição n.º 3931 de 13 de Abril de 2012

