Semanário Regionalista Independente
Sexta-feira Maio 29th 2026

A QUIMERA DO OURO E O CICLO DAS ILUSÕES NACIONAIS

José Jorge Letria

Não faltará quem diga que se tratou de dádiva divina quando se tentar perceber como foi possível ninguém dar pelos “graus impressionantes” de ouro detectados nas perfurações efectuadas por uma empresa canadiana que está a operar em Boa-Fé, no concelho de Évora.
Estando Portugal no estado em que está, tudo me leva a crer que famílias inteiras irão rumar ao Alentejo nos próximos meses, de tenda e farnel, para se dedicarem ao garimpo da sorte em tempo de vacas muito magras e incertezas totais quanto ao futuro. Foi assim que se mudou o rosto e a demografia de países como os Estados Unidos da América. Foi assim que pequenos países se transformaram em impérios, depois de usurparem o ouro de quem vivia há séculos nos territórios entretanto ocupados. Os povos pré-colombianos da América Central e do Sul bem sabem qual o preço que se pode pagar quando a ganância sem limites dita as suas leis.
Portugal, que não mexeu nem mexe nas suas reservas de ouro salazaristas, vê agora acender-se uma pequena vela da esperança com a notícia de que existe ouro em quantidade em Boa-Fé. É uma sina nossa vivermos à custa da luz tremeluzente destas velinhas, mesmo que tenham a forma e a esmagadora visibilidade mediática da Selecção Nacional de Futebol ( esta crónica é escrita véspera do decisivo Portugal-Holanda). Agora, toda a gente vai começar a fazer planos para o ouro alentejano, que já deve ter destino em termos empresariais e que, segundo creio, vai deixar os habitantes locais muito cépticos, porque passaram a vida a sofrer e a ser explorados e o único ouro que conheceram foi a esperança fugaz que lhes trouxe o 25 de Abril.
A euforia não virá dali, mas sim dos desempregados e outros cidadãos em crise que talvez acreditem que algumas pepitas desgarradas lhes possam vir a parar às mãos, mudando a sua amarga sorte. Pura ilusão, porque o perímetro de exploração vai estar rigorosamente delimitado e protegido com férreas medidas de segurança.
Portanto, o melhor será fazerem outras contas, que passem pelo combate político, pelo recurso ao micro-crédito ou até por se transformarem em “chefs” de cozinha, actividade que, estando na moda, está a trazer fama e fortuna a gente que eu nunca imaginaria à volta dos pratos e tachos de uma cozinha. E não deixa de ser curioso que, num tempo em que há tanta gente com fome assumida e declarada, se enfatize o papel da gastronomia de excelência, por certo muito distante, no seu preçário, daquela que pode consolar quem vive em estado de absoluta carência. Mas o mundo mediático é o que é, e para mim, os “chefes” continuam a ser os das míticas tribos índias, de Jerónimo a Cochise, passando por Touro Sentado, já que os líderes políticos actuais, domésticos e internacionais, não deixam margem para ilusões.
Assim, vamos ficar todos à espera das notícias vindas de Boa-Fé, e com boa-fé, na convicção de que os “graus impressionantes” de ouro tragam pelo menos postos de trabalho para uma região onde eles há muito escasseiam. Entretanto, convém estarmos atentos à boca dos senhores da Troika. Se começarem a sorrir com dentes de ouro, já sabemos que o ouro alentejano está, estoicamente, a colaborar no resgate da nossa sufocante dívida nacional.

Crónica publicada no Jornal de Sintra, página 3 da edição n.º 3941 de 22 de Junho de 2012

Leave a Reply