Semanário Regionalista Independente
Sexta-feira Maio 29th 2026

“BBC – As Crónicas de TV”

Aniversários e outras festas

Bernardo de Brito e Cunha

DUAS OU TRÊS coisas apenas. Primeiro, chamar a vossa atenção para o facto de a menção à Costa Alentejana que estava um pouco por todo o lado nas “7 Maravilhas – Praias de Portugal” ter desaparecido de quase todos os lugares. Alguém deve ter achado que a coisa era um pouco demais e terá pegado numa borracha. Fico satisfeito, não porque ache que tenha sido a referência a esse facto, aqui feito, que alterou as coisas, mas simplesmente porque surgiu alguém que conseguiu ver um poucochinho mais além. E isso é um bem inestimável – porque cada vez mais raro.

DEPOIS TEREI de vos dizer (um pouco desnecessariamente, por tantas vezes já o ter escrito aqui) que adoro Tânia Ribas de Oliveira e João Baião, a dupla que faz o “Portugal no Coração”, pelas razões que terei explicado nessas alturas. Mas o “amor” não é cego, como diz a sabedoria popular, e podemos ter a noção perfeita dos defeitos do outro. Se as queremos levar em linha de conta ou não, já é uma outra questão. Ora, por mais que goste do programa e dos apresentadores (mais destes do que do programa), a verdade é que há coisas que não me parecem bem. Como aconteceu na última segunda-feira, em que o programa foi inteiramente dedicado ao aniversário de Tânia e, logo de seguida ou ao mesmo tempo, à notícia da sua gravidez.
Perguntar-me-ão: mas foi um apontamentozinho, ou um para cada um dos eventos? Não: foi o programa todo, duas horas e um quarto dele, a ouvir a família, as amigas da escola, do ballet, eu sei lá! E perguntarão ainda e de seguida: “E isso é grave? A rapariga é tão simpática!” Pois será: mas é grave na mesma. Isto é: se fosse o Manuel Luís Goucha a fazer um programa de festa de aniversário a Cristina Ferreira, na TVI, era perfeitamente normal. Se alguém se lembrasse de celebrar o aniversário de Fátima Lopes, na SIC, enquanto ela lá ia ouvindo desgraças e oferecendo uns dinheiros, estava perfeito. Agora na RTP que todos pagamos é que a coisa já não está bem. Na estação pública é que não.

NA ESTAÇÃO PÚBLICA deviam comemorar-se as efemérides – não os aniversários das apresentadoras – e todos sabemos como a estação pública se vai esquecendo, metódica e paulatinamente, das coisas que mais deviam interessar. Como vai fazendo uma programação de fait divers em vez de uma coisa a sério, como põe no ar telejornais que são feitos à base de vídeos do YouTube em vez de nos dar as notícias que realmente interessam. E quando a RTP deu a notícia de quem tinha ganho as eleições na Grécia, só lhe faltou ter dito “a Alemanha” em vez de “a Nova Democracia” – o que vem mais ou menos a dar no mesmo. O “Telejornal” é que se esqueceu de explicar semelhanças e diferenças…

E COMO ÀS VEZES ACONTECE, o bloco final tem, muitas vezes, alguma coisa a ver com a actualidade. Veja-se como ali se fala de um jogador vaidoso que, depois de perdermos com a Coreia, no campeonato do mundo de 2002, ameaçou abandonar a seleção. Era jovem, e aparentemente caiu em si. Reapareceu no jogo contra a Holanda, no fim de semana passado (e espero que continue reaparecido no jogo que terá tido lugar ontem, para quem me lê), o que significa que lhe foram necessários dois jogos para se “readaptar”, por assim dizer. E o que quer dizer também que talvez o treinador Manuel José não estivesse tão longe da verdade quanto isso, quando disse que o treino da seleção estava a ser “um circo”. Toda a gente achou que aquelas palavras eram quase crime de lesa-majestade, esquecendo que Manuel José é um homem de enorme experiência e cheio de triunfos, taças e medalhas que, infelizmente, teve de conquistar fora do seu país. Mas isso já é outra nota de quinhentos…

HÁ 10 ANOS ESCREVIA

«De repente, os bestiais jogadores da nossa selecção, presente na fase final do Campeonato do Mundo deste ano, transformaram-se em perfeitas bestas. É certo que a selecção não fez aquilo que esperávamos dela; não é menos verdade que começar a perder com os Estados Unidos, não terá deixado a rapaziada com grande ânimo; mas convém que se diga que a saborosa vitória sobre a Polónia deveria ter apagado tudo isso. Mas o facto é que não fomos capazes de ultrapassar a Coreia. A partir daí é que as coisas se entornaram definitivamente. Sobretudo, a partir do momento em que alguns dos nossos jogadores foram expulsos. (…)
Eu já nem falo naquilo que de mal se jogou pela Coreia. Onde estava o melhor jogador do mundo – que depois do desaire veio dizer que estava a pensar não jogar mais pela selecção? Só um jogador que jogou tão mal (e que esteja cheio de uma grande vaidade) pode vir dizer uma coisa destas. Todos nós agradecemos que ele não jogue pela selecção: pode ser que seja substituído por alguém que, de facto, jogue à bola – mesmo sem vender a imagem para quatro ou cinco anúncios.»
(Este bloco respeita a grafia em uso no ano em que foi escrito.)

Crónica publicada no Jornal de Sintra, página 7 da edição n.º 3941 de 22 de Junho de 2012

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