Semanário Regionalista Independente
Sexta-feira Maio 29th 2026

PARA QUE A EUROPA NÃO DESISTA NEM SE RENDA

José Jorge Letria

Não foi destruído nenhum megaedifício com milhares de pessoas no interior, nem um aeroporto, nem uma grande estação da caminho de ferro, nem sequer um restaurante em hora de ponta. Foi destruída a redacção de um semanário humorístico existente em dois períodos desde 1969. Acontece, porém, que a destruição dessa dezena de vidas, mais as que pagaram por prestarem serviço no mesmo espaço, representou um intolerável atentado à liberdade de expressão de pensamento e, mais concretamente, à liberdade de imprensa no país que viu triunfar a revolução que consagrou os princípios-valores da liberdade/igualdade/fraternidade e os princípios que regem a Declaração Universal dos Direitos do Homem. Parece coisa pouca, mas é muito, é quase tudo, coisa que um grupo de cidadãos fanatizados pelo uso individual e permanente da Net não percebem porque não andavam cá quando a luta pelas liberdades fundamentais era o amargo pão de cada dia e de cada noite. O seu narcisismo ainda estava para nascer e para se dar a ver.
Os atentados praticados em Paris foram, como já vários o declararam, uma espécie de 11 de Setembro da liberdade de expressão, e é rigorosamente verdade. Muita gente que desfilou nas ruas de Paris e de outras cidades francesas no passado domingo nunca leram o “Charlie Hebdo”e outros que o leram nem sequer se identificavam minimamente com o seu estilo, a sua rebeldia e o seu constante excesso e desalinhamento. Todavia, todos eles sabiam que aquelas vidas, aqueles traços e aquelas pessoas representavam o que a sua sociedade tem de mais perene e profundo e que nem os nazis durante os anos de ocupação na II Guerra Mundial conseguiram destruir ou silenciar em definitivo.
Por outro lado, nunca um homem de 80 anos como Georges Wolinski, um dos maiores cartoonistas das últimas décadas em todo o mundo, conseguiu prever que o seu rosto viria um dia a ser a imagem central do edifício da Câmara do Porto, pelo facto de ter presidido ao júri de um prestigiado prémio internacional de cartoonismo.
Tudo isto aconteceu porque dois irmãos criminosos, em nome do radicalismo islâmico, decidiram executar os maiores criadores do “Charlie Hebdo”, como se, matando-os, pudessem dar ao profeta o conforto de ser “vingado”. E ainda falta citar uma terceira estranha criatura que matou uma mulher polícia, que abriu fogo de forma surreal sobre um homem que fazia a sua corrida de manutenção e depois tomou de assalto um super-mercado judeu e conseguiu, antes de ser abatido, tirar a vida a quatro homens que ali faziam tranquilamente as suas compras. Fica-se até com a sensação que este estranho atirador, que em 2009 beijara Sarkozi por lhe dar emprego, não quis perder a sua oportunidade de ser famoso, colando-se à acção dos dois irmãos para que o seu nome ficasse na galeria dos verdadeiros culpados da tragédia.
A partir daqui, quase tudo são interrogações e dúvidas. A manifestação que encheu e levou ao rubro várias cidades de França representou um passo relevante na pública afirmação dos valores da liberdade e da democracia, apesar de os Estados Unidos se terem feito representar somente pelo seu embaixador em Paris e não por Obama ou até por Bill Clinton. Falha de peso e demasiado notória e lamentável.
De momento não se sabe de que forma a moldura securitária, penal, repressiva e de vigilância quotidiana se vai agravar. Não se sabe também se os cerca de 1.200 franceses de origem islâmica que se diz estarem identificados com o radicalismo irão dar mais algum trágico sinal de vida. Não se sabe até que ponto a extrema-direita de Marine Le Pen irá ou não tirar dividendos eleitorais de tudo o que aconteceu. E também não se sabe até que ponto o excelente trabalho de intervenção e propaganda democrática e republicana de François Hollande lhe conferiu força bastante para deixar a zona de quase derrota em que até agora se encontrava.
As dúvidas são muitas, as interrogações também e ninguém sabe o que se passa no coração da França rural, dos bairros pobres dos arredores das grandes cidades, que tanto têm mudado o seu sentido de voto, e na perspectiva política de milhões de homens e mulheres que, depois de serem “Charlie”, voltarão a ser todos os dias o que sempre foram. E são esses que votam a decidem o futuro de França, desejavelmente em nome da democracia, da liberdade e da tolerância.
Uma coisa é certa. Houve três palavras poderosas que soaram pelas ruas e praças de França-Igualdade, Liberdade, Fraternidade. Se elas, as palavras e os conceitos anexos, conseguirem sobreviver, acima do divisionismo das religiões e dos preconceitos culturais e civilizacionais, talvez a esperança sobreviva e este “11 de Setembro” tardio e inesperado já tenha passado à História. Para quem não reza, como é o caso do cronista, resta esperar, com vigilante serenidade cidadã, em nome de dos princípios e dos valores que continuam a fazer da Europa um grande continente, com uma história única, grandiosa e irrepetível.

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