Ser ou não ser Charlie, eis a questão
Bernardo de Brito e Cunha
O ATAQUE de há uma semana ao semanário (como de resto o seu nome indica) humorístico francês “Charlie Hebdo”, não foi na minha opinião um ataque terrorista, nem um ataque de cariz religioso: foi um crime de grandes dimensões, que conseguiu ceifar a vida a 12 pessoas. Tal como acontece, tantas vezes pelas Américas do norte, em que um tresloucado entra por uma escola dentro e mata, indiscriminadamente, colegas, professores, pessoal da escola e desconhecidos.
DE QUALQUER forma, 12 pessoas é um número de vítimas considerável (basta dizer que é praticamente o dobro das pessoas que, em Portugal, e que se saiba, morreram nas urgências dos hospitais), e quase toda a gente se apressou a classificar aquelas mortes como um ataque à liberdade de expressão por parte de três ou quatro indivíduos que não gostavam que o “Charlie Hebdo” se metesse com o Corão, Alá, e talvez também o seu profeta. Daí a que se organizasse em Paris uma marcha contra este ataque ao que se chamou “liberdade de expressão” foi um instante. A que não faltaram chefes de Estado e de Governo, entre os quais se contavam os nossos (?) Pedro Passos Coelho e Assunção Esteves, certamente já no seu papel de segunda figura do Estado, dado que Cavaco Silva estava de partida não sei para onde.
IDEIA MERITÓRIA, esta: todos os mortos tinham nacionalidade francesa, embora alguns fossem descendentes de argelinos ou de israelitas. O que já não se percebe tão bem é que, nas longas transmissões que televisões de todo o mundo emitiram, tenham aparecido alguns rostos que têm uma (digamos assim) vida dupla. Vejamos:
O rei Abdullah (II, creio) da Jordânia, que o ano passado condenou a 15 anos de trabalhos forçados um jornalista palestiniano;
O primeiro-ministro Ahmet Davutoğlu da Turquia, onde já foram presos mais jornalistas do que em qualquer outro país do mundo;
O primeiro-ministro Netanayhu de Israel, cujas forças mataram sete jornalistas em Gaza, o ano passado;
O ministro dos negócios estrangeiros do Egipto, Shoukry, que prendeu o jornalista Shawkan durante cerca de 500 dias;
Ramtane Lamamra, ministro dos estrangeiros da Argélia, que manteve preso o jornalista Abdessami Abdelhai durante 15 meses sem culpa formada ou acusação;
O Procurador-Geral dos Estados Unidos em exercício (apresentou a demissão em finais do ano passado) Eric Holder, que permitiu que a polícia de Ferguson atacasse e detivesse jornalistas do “Washington Post”;
E finalmente (que me desculpem aqueles que não vislumbrei…) o primeiro-ministro em exercício da Grécia, Antonis Samaras, cuja polícia de choque agrediu violentamente dois jornalistas durante uma manifestação anti-troika, em Junho do ano passado. Mais ainda: Samaras pediu veementemente a Alexis Tsipras que demitisse o director da rádio grega de esquerda Sto Kokkino, Kostas Arvanitis, depois deste ter chamado a Samaras kas, a palavra grega para idiota… Não esqueçamos que desde que Antonis Samaras chegou a primeiro-ministro em 2012, a Grécia desceu 29 lugares na Lista de Liberdade de Imprensa.
AQUELAS LINHAS de governantes, portanto, tinham toda a razão (e direito!) a estarem ali a defender a Liberdade de Expressão. E não esqueçamos os nossos representantes, nomeadamente Assunção Esteves: ninguém se esquece da sua intervenção contra o povo que se quis manifestar na Assembleia da República…
HÁ DEZ ANOS ESCREVIA
«No passado domingo, José Castelo Branco voltou à TVI. Uma das primeiras coisas que disse foi “Cá estou eu, o verdadeiro, nada de imitações”. Entendeu-se o recado: ele é que é a coisa a sério, não a imitação (reles: não disse, mas pensou, se é que pensa) a que todos os domingos, na SIC, durante o programa de Herman José, Joaquim Monchique dá corpo e voz e gestos e tudo. O recado era este, percebeu-se lindamente. Mas as coisas são o que são e não exactamente aquilo que queremos – e os números encarregaram-se de o desmentir. (…) Porém, por muito seguro que estivesse de ser “o original”, a verdade é que os telespectadores preferiram o “Herman SIC”. No top de domingo, o programa de Herman José ficou em 8.º lugar na tabela de audiências enquanto Castelo Branco se ficou pelo 14.º lugar.»
(Esta crónica, por desejo expresso do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)

