Semanário Regionalista Independente
Sábado Julho 20th 2019

“BBC – As Crónicas de TV”

É tudo gente que não sabe (mesmo) estar…

Bernardo de Brito e Cunha

A quem importa que o Montenegro (não, não é o país que na década de 1990 fez pendant com a Sérvia formando a nova República Federal da Jugoslávia, governada por Slobodan Milošević, esse grande democrata que viria a ser julgado e acusado pelo Tribunal Penal Internacional para a antiga Jugoslávia por crimes de guerra e contra a humanidade) se tenha armado em galarote e desafiado Rui Rio para “directas, já”? Ninguém, quando na TVI estreava, domingo passado, o novo espaço de Ricardo Araújo Pereira, “Gente Que Não Sabe Estar”. E quando Montenegro, também ele um grande democrata (não esqueçamos que este advogado, que foi deputado e líder parlamentar do PSD na Assembleia da República entre 2011 e 2017, e de quem se soube que era um dos sete deputados da XIII legislatura que detinham mais de 10% do capital de empresas ou de sociedades de advogados que ganharam contratos com o Estado português, o que é ilegal. Uma dessas firmas obteve alegadamente seis contratos por ajuste directo de entidades públicas: quatro do Município de Espinho [presidido por Joaquim Pinto Moreira, do PSD] e dois do Município de Vagos [presidido por Silvério Regalado, do PSD], perfazendo um valor global de cerca de 188 mil euros, alegadamente, claro está…) quando esse mesmo Montenegro, dizia eu, no final do Congresso Nacional do PSD que reafirmou Rio na liderança veio dizer “Acordei o gigante adormecido”, a que se referia ele? Naturalmente que a Ricardo Araújo Pereira, que há uma série de anos não aparecia na TV no seu papel de humorista, que aquilo do “Governo Sombra” mal dá para aquecer…

A quem importa que Bernardino Soares, presidente da Câmara de Loures (ou o contínuo da Câmara por ele, tanto dá) tenha assinado um contrato por ajuste directo com um cavalheiro cujo nome desconheço (e a maior parte da população também não reteve, tenho a certeza) para fazer uns trabalhos de manutenção? Importa e muito e a todos nós. Desses trabalhos, malevolamente, as pessoas fixaram apenas a mudança de quatro lâmpadas e dois casquilhos – ou então troquei os números, mas vem a dar no mesmo. Claro que Bernardino ou a Câmara de Loures por ele, ou ele pela Câmara, tanto faz, estiveram mal ao fazer o contrato com o tal cavalheiro. Estiveram mesmo péssimos. Mas o que foi que sobressaiu aos olhos dos meus camaradas jornalistas (uma amiga costumava dizer que “colegas são as senhoras da má-vida”, os jornalistas são camaradas) e se lhes fixou na retina, neste caso? A circunstância de o tal cavalheiro ser genro de Jerónimo de Sousa, secretário-geral do PCP… Que tem Jerónimo a ver com o contrato de trabalho do genro? É seu agente? O genro submete à sua apreciação os contratos de trabalho que faz? Não me parece e, portanto, não percebo.

E depois, naturalmente, temos Ricardo Araújo Pereira, e o seu “Gente Que Não Sabe Estar” – que é, de facto, o que as gentes de que falo atrás não sabem fazer… Que começou por ter promoções, tanto quanto sei três, mas de que apenas vi uma: aquela em que RAP pedia encarecidamente a Marcelo Rebelo de Sousa para não lhe telefonar para o programa que ia estrear brevemente. É um programa de cerca de 20 minutos (confesso que não cronometrei, mas a julgar pela hora de início e de fim, deve andar por aí) e está integrado no “Jornal das 8”. Tão integrado, que começou por pôr Judite de Sousa de pernas para o ar. Gostei: mas eu, caramba, sou suspeito. Lembro-me de vir uma ocasião de Atenas a ler um livro seu e já não havia, naquele aparelho, quem pudesse suportar os meus risos e gargalhadas… Aquilo é um programa semanal de humor político (onde constaram os dois temas que descrevo acima, a que foram acrescentados muitos outros), ao estilo do norte-americano Daily Show, celebrizado por Jon Stewart e que se mantém no ar pela mão de Trevor Noah, se não estou em erro. Convidou dois dos “Gatos” e acrescentou-lhes uma série de gente – e aí não sei se fez bem… Os restantes não correspondem ao seu tom e são bastante desiguais mas, pode ser que seja isto, talvez corresponda a uma, de certa maneira, passagem de testemunho. Da mesma maneira que os (pseudo) avisos de que a TVI se “demarca”, “repudia veementemente”, etc., etc., nos fazem recordar as referências aos censores por parte de Herman José.

HÁ DEZ ANOS ESCREVIA

«Não tenho dúvidas de que tudo aquilo que foi dito por Obama na sua campanha tenha criado em muitos milhões de americanos – e em muitos mais cidadãos do mundo – o reacender da velha frase (e discurso) de Martin Luther King, “Eu tenho um sonho”. E se, até agora, esse sonho era pertença quase exclusiva de Martin Luther King, Obama teve o condão de fazer com que ele passasse a ser o sonho de milhões de americanos e, mais uma vez, em muitos mais cidadãos do mundo. Todos esses esperam agora que Obama faça quase um milagre: vamos ver se o consegue.»

(Esta crónica, por desejo expresso do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)

Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 4243 de 25 de Janeiro de 2019

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