Semanário Regionalista Independente
Sexta-feira Março 22nd 2019

“BBC – As Crónicas de TV”


Minha querida Elisa:


Bernardo de Brito e Cunha

Venho fazer-te um pedido e, também, uma queixa embora saiba que não tens nada a ver com o assunto. Mas uma pessoa tem de desabafar, não é? Conheci-te o ano passado, a 17 de Setembro, embora a princípio não te tenha visto: mas tanta gente perguntava “Onde está Elisa?”, que era um pouco como se já te tivesse visto. Depois de muitas histórias e reviravoltas – tantas que muitos te davam como morta – vi-te finalmente: presa é certo, mas viva. Na mesma altura em que fiquei a saber quem era o teu raptor e que te mantinha cativa. E foi exactamente nessa altura, quando tudo parecia ir desenrolar-se rumo ao final tão desejado que, zás!, a TVI deixou de te mostrar. No dia 20 de Novembro, a tua história foi interrompida ao fim de 48 episódios de emissão. Caramba! Tinham-nos dito que eram 120! Onde paravam os restantes?

Quer dizer: quando a tua história prometia conhecer razões, motivos, culpados, cúmplices, quiçá, a TVI (que é quem conta a tua história) decide parar de dar conta de ti, dos teus pais, do inspector da Judiciária que não desistiu de te encontrar, de tudo. E assim se acabou o ano, Elisa. Sem ti. Só que de repente, alegria das alegrias, eis que sem qualquer aviso voltaste a 7 de Janeiro. “É agora”, pensei, “que se vai saber tudo.” Ora qual quê! Mês e meio depois (a 22 de Fevereiro), pumba!, a TVI faz o mesmo que em Novembro: sem mais aquelas (pediu-te licença ou deu-te conta disso?) deixa de te ligar e de dar notícias tuas. Bolas outras vez! A saber que estás numa cama de hospital, traumatizada e vítima de um tiro, e nem isso os comove? Mas que espécie de gente será esta que não se comove com nada? Que terão no lugar do coração?

E agora, Elisa? Pois parece que não me resta outra coisa que não seja desejar que a história se volte a repetir: isto é, que uma noite destas, outra vez sem aviso, essa tal de TVI decida de repente voltar a contar o que se passa contigo, como estás a recuperar, essas coisas… Só espero que a vida te seja leve, Elisa. E a TVI também. Especialmente esta e neste momento que atravessamos, quando aconteceu o que não se via há 150 meses, conforme a própria TVI não se cansava de nos fazer recordar: que a SIC tinha sido líder de audiências em Fevereiro… E foi um bocado patético ver José Alberto Carvalho, no “Jornal das 8” vir defender o possível (ou o que restava, conforme se preferir): isto é, que a TVI continuava a ser líder no horário da noite, nas novelas, etc., etc.. E até Ricardo Araújo Pereira foi chamado por José Alberto para esta luta com o seu “Gente que Não Sabe Estar”, com um milhão e 400 mil espectadores. Isto quando não se pode dizer “somos mais uma vez líderes absolutos”, faz-se o que se pode. Chegando mesmo ao ponto de caçar com o gato RAP…

É verdade que isto não se fica a dever apenas a Cristina Ferreira, transferida se assim se pode dizer para a SIC em Janeiro, mas de uma maneira geral ao fenómeno de arrasto que essa mudança implicou e de que aqui já fiz referência. Mas pronto: na SIC (que deixou de ser de Carnaxide e passou a ser de Paço de Arcos) reinou de novo a alegria e terá corrido, quiçá, algum champanhe, mas a verdade, Elisa, é que a TVI não te tem tratado bem. Já não te bastava a tua vida e ainda por cima o canal que te transmite te trata a pontapé. Não é bonito: é violência. Não doméstica, mas violência mesmo assim.
Estimo as tuas melhoras e que te volte a ver em breve.

HÁ DEZ ANOS ESCREVIA

«No último episódio de “Equador”, o governador de S. Tomé e Príncipe, Luís Bernardo Valença, na sua ronda por todas as roças da ilha, chega àquela que é propriedade de Maria Augusta. Para sua surpresa, naquele fim do mundo, descobre que aquela mulher assina revistas estrangeiras, fala francês e é possuidora da uma biblioteca impensável naquelas ilhas perdidas. E, pegando num livro, lê uma frase de Victor Hugo: “Com efeito, declaro que haverá sempre infelizes, mas é possível deixar de haver miseráveis.” A frase foi dita por Victor Hugo na Assembleia Francesa. E, tal como em Julho de 1867 Hugo saudou Portugal por ser o primeiro país da Europa a abolir a pena de morte, escrevendo “Felicito o vosso parlamento, os vossos pensadores, os vossos escritores e filósofos! Felicito a vossa nação. Portugal dá o exemplo à Europa. Desfruta de antemão essa imensa glória. A Europa imitará Portugal”, faz falta que um Victor Hugo venha relembrar agora ao parlamento português que “é possível deixar de haver miseráveis”.»

(Esta crónica, por desejo expresso do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)

Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 4249 de 8 de Março de 2019.

Leave a Reply

You must be logged in to post a comment.