Semanário Regionalista Independente
Terça-feira Junho 25th 2019

“BBC – As Crónicas de TV”

Bendito, três vezes bendito seja o teu nome, Jacinda

Bernardo de Brito e Cunha

Foi das mulheres que mais me impressionou ultimamente. Não, não é artista de telenovelas ou de séries, mas desempenhou um papel que raramente se vê nas ficções de que este país e seus canais estão cheios.
Quando um homem de nacionalidade australiana, de 28 anos, entrou a matar em duas mesquitas de Christchurch, filmando e transmitindo em directo todos os seus passos, tornou-se óbvio o que queria: notoriedade e visibilidade para os seus ideais racistas. Mas a Nova Zelândia – na figura da sua primeira-ministra, Jacinda Ardern –, recusou-lhe o protagonismo e optou por nem sequer se referir ao atacante pelo nome próprio.

“Ele é um terrorista,” ouvi-a dizer no jornal televisivo da noite em que vos escrevo, “um criminoso, um extremista, mas quando eu falar, ele não terá nome. E imploro-vos: falem dos nomes dos que perderam a vida em vez do homem que as levou. Ele pode ter procurado notoriedade, mas na Nova Zelândia não lhe vamos dar nada – nem mesmo o nome”, disse Jacinda Ardern durante o seu primeiro discurso no Parlamento desde o atentado de sexta-feira, onde morreram 50 pessoas durante a oração de sexta-feira. Quase me comoveu até às lágrimas, o raio da miúda. E miúda, sim: tem 38 anos e é a líder mais jovem do mundo.

A forma como Jacinda Ardern geriu a tragédia que lhe caiu no país valeu-lhe elogios a nível internacional. A primeira-ministra foi rápida a designar o acto de violência como um “atentado terrorista” e, logo na primeira vez que se dirigiu à nação, recusou terminantemente que a comunidade muçulmana fosse “os outros”: “Eles são nós”, repetiu incessantemente. Pouco depois, prometeu uma alteração na legislação de acesso às armas e colocou-se ao lado das comunidades afectadas, dando o que mais precisam agora: apoio e empatia.

“Um acto de violência sem precedentes que não tem lugar na Nova Zelândia”, afirmou Jacinda Ardern, nas primeiras horas da madrugada em Portugal e ao início da tarde naquele território da Oceânia. A governante diz tratar-se de “um dos dias mais negros”, na sequência de tiroteios em duas mesquitas que causaram, até ao momento, 50 vítimas mortais e cerca de duas dezenas de feridos na cidade de Christchurch.
Numa conferência de imprensa, a primeira-ministra disse que muitas pessoas afectadas podem ser migrantes ou refugiadas “que escolheram fazer da Nova Zelândia a sua casa”. “Esta é a sua casa. Elas são nós. A pessoa que perpetuou essa violência contra nós, não é”, frisou. A polícia neozelandesa aconselhou as pessoas a não se deslocarem a qualquer mesquita no país e para permanecerem nas suas residências.

Logo no dia a seguir ao massacre, a primeira-ministra visitou Christchurch, palco do atentado, levando com ela os líderes de todas as cores políticas. Falou com os líderes muçulmanos presentes e abraçou quem estava a fazer o luto pelos seus familiares. Tudo isto enquanto usava um véu – mesmo sendo agnóstica.
“As pessoas ficaram surpreendidas. Eu vi os seus rostos quando ela estava a usar o hijab – tinham sorrisos na cara”, disse Ahmed Khan, um dos sobreviventes do ataque à CNN. “Usar o véu é como dizer eu respeito-vos, respeito o que acreditam e estou aqui para ajudar”, completou Ali Akil, membro da organização de sírios na Nova Zelândia, a Syrian Solidarity New Zealand.

E eu que tencionava dizer mal de José Eduardo Moniz, acabei por desistir: tem tempo. Porque não tem sido à toa que esta mulher tem aparecido em todos os telejornais. E caramba se eu não quero ser neozelandês! Com carácter de urgência.

HÁ DEZ ANOS ESCREVIA

«Há muito tempo que não falo (o que, no que diz respeito a esse programa, significa sempre “dizer bem”) de “Portugal em Directo”, no ar todos os dias úteis entre as seis e as sete da tarde. Eu sei que volta e meia falo aqui do programa de Dina Aguiar e sua equipa: mas nunca será de mais frisar, parece-me, o que aquele representa. Vejamos então: que o Telejornal da noite faça uma ligação directa porque houve um acidente, porque estalou um incêndio, porque qualquer coisa, parece-me perfeitamente normal. No entanto, como sabemos, qualquer jornal da noite (de qualquer canal nacional) dá maior atenção a um qualquer fait-divers do que a uma questão, ainda que pequena, ocorrida no país profundo. E é aí que encontramos, nessas coisas pequenas, todos os dias úteis, o “Portugal em Directo”.»

(Esta crónica, por desejo expresso do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)

Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 4251 de 22 de março de 2019

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