Semanário Regionalista Independente
Terça-feira Fevereiro 25th 2020

“BBC – As Crónicas de TV”

Quem quer ser Directora de Informação?

Bernardo de Brito e Cunha

Impõe-se que diga duas coisas, antes de começar. No que diz respeito a Maria Flor Pedroso, a bem dizer, eu só a conhecia “de voz”, das rádios em que ela se mostrou ponderada e calma e com um currículo de bons programas. Já Sandra Felgueiras só a conheço por ser filha de Fátima Felgueiras e de tudo o que fez depois disso. O seu trabalho teve uma charneira, o saco azul (ou alegado, antes que me levem preso) de Fátima, mas que teve, no entanto, um ponto alto para Sandra: a circunstância de, no local onde trabalhava na altura, se ter recusado a trabalhar no que quer que fosse que tivesse a ver com o problema da mãe. Isso, na altura, caiu-me bem: o problema é que todo o percurso posterior, a partir de um certo momento, me mostrou uma Sandra Felgueiras que parecia estar enfurecida com tudo. Por muito que perceba que as coisas que ela relata e que se passam neste país nos podem (devem) dar ensejo para isso, Sandra Felgueiras já devia ter deitado um olhar à “concorrência” e concluído que ela não tem de ser igual a Ana Leal…

Mas havia os problemas do lítio e do ISCEM, o Instituto Superior de Comunicação Empresarial, com que Maria Flor teve uma relação mais ou menos de trabalho. Alegadamente. E Sandra Felgueiras, que não deve ser boa de assoar, pôs a mão na anca e partiu para o ataque – a pretexto de lhe terem “congelado” o programa sobre o lítio durante a última campanha eleitoral. Sandra garantia que isto era uma cabala política, Maria Flor afirmava que não senhor, que estava previsto o “Sexta às 9” ir de férias. A coordenadora do “Sexta às 9”, em 11 de Dezembro, tem uma reunião com o Conselho de Redacção a propósito do programa sobre o lítio, e em que adiantou que o programa estava a investigar suspeitas de corrupção no âmbito do processo de encerramento do ISCEM, que passava pelo alegado recebimento indevido de “dinheiro vivo” – e em função dessas informações, Maria Flor Pedroso escreveu uma carta à Administração da RTP a pôr o seu lugar de Directora de Informação à disposição.

Mas há mais: nessa reunião, Sandra Felgueiras acusou Maria Flor Pedroso de ter transmitido informação privilegiada à visada na reportagem, a directora do ISCEM, Regina Moreira, o que a agora demissionária directora de informação da RTP “rejeitou liminarmente”, de acordo com as actas do CR e com a posição enviada à redacção pela agora directora de informação demissionária da RTP. Mas a Sandrinha fez mais: o caso do ISCEM foi relatado pela jornalista ao departamento de análise de media da ERC há uma semana, quando foi ouvida no âmbito do processo de averiguações aberto devido a queixas de espectadores sobre a suspensão do programa de reportagens durante o mês de Setembro, alegadamente por causa da campanha eleitoral.

Os jornalistas da RTP-TV, reunidos posteriormente em plenário convocado sobre o assunto, decidiram “lamentar a violação dos deveres deontológicos dos jornalistas e de lealdade para com a redacção da RTP-TV por parte da directora de informação demissionária, Maria Flor Pedroso, no decorrer da investigação do chamado ‘caso ISCEM’”, referem em comunicado.

Isto parece-me ter sido mal aproveitado pela RTP: se tivesse transformado isto numa espécie de “reality show”, com sessões diárias, depois do “Telejornal” a estação pública estava agora com um “share” que nem o Correio da Manhã-TV lhe chegaria aos pés. E se, como tudo parece indicar (alegadamente, claro), Sandra quer o lugar de Directora, o céu era o limite! Era tudo uma questão de marketing, caramba! Ninguém pensou nisto?

HÁ DEZ ANOS ESCREVIA

«Aconteceu-me há uns dias ter sido apanhado de surpresa, na SIC Notícias, por uma entrevista de Caetano Veloso já na pontinha final. Para além de cantor, Caetano é um homem que participa activamente na vida do seu país e ataca aqueles que acha que deve atacar – como aconteceu frequentemente com Lula (com a história, por arrasto, de Dona Canô, a mãe de 102 anos, não ter gostado que o filho Caetano Veloso chamasse “analfabeto, cafona e grosseiro” ao presidente brasileiro Lula da Silva e ter feito os impossíveis para lhe pedir desculpa…), mas também com o amigo e companheiro de canções (e só não ministro porque já se demitiu do Ministério da Cultura) Gilberto Gil. Era pena perder um entrevistado assim.»

(Esta crónica, por desejo expresso do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)

Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 4286 de 20 de Dezembro de 2019

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