Prós e contras da TVI
Bernardo de Brito e Cunha
TODAS AS COISAS têm as suas explicações. Deve ter acontecido que a TVI se fartou de ver a novela “Dancin’ Days” a bater sistematicamente a sua sacrossanta “Casa dos Segredos” e a dar cabo dos investimentos que essa casa implica – e nem sequer estamos a falar no IMI… Mas parece-me que nesse afã de procurar vingança, a TVI perdeu um bocadinho a cabeça. Como a “Casa dos Segredos” se ficava bastante abaixo do que “Louco Amor” fazia à mesma hora, eis que uma noite destas assisto a um resumo em que foi um vê se te avias de injectar polémicas, sexo e brejeirice q.b.. A receita é a coisa do costume, mas o que me surpreendeu foi a dose, porque revelou uma total ausência de sensibilidade, bom gosto e de decoro.
VI, MAIS TARDE, que a operação estava bem montada. Isto é: aproveitando o comportamento que o reality show tem feito nas redes sociais, a TVI lança um engodo na Internet à tarde e espera pelos frutos na televisão à noite. E não há dúvida que a estratégia tem resultado. Nos últimos dez dias, o diário exibido às 21h30, cresceu entre 100 a 200 mil espectadores e na quinta-feira chegou mesmo a ultrapassar 1,4 milhões. Mesmo que para isso seja preciso lançar a suspeita, às nove e meia da noite, de que um concorrente está a cheirar cocaína debaixo da cama… Mesmo que para tanto seja preciso promover um strip e passar algumas imagens, às nove e meia da noite, de concorrentes praticamente nuas a passearem as formas voluptuosas (e algumas até as têm) junto à cara de machos que, suponho, devem estar cheios de testosterona. Alguns. Adiante. Mesmo que para isso seja preciso dar como missão a uma concorrente seduzir o ex-namorado, que entretanto se diz apaixonado por outra concorrente da casa, e passar imagens, às nove e meia da noite, da sedutora a roçar-se, repetida e mecanicamente, nas partes baixas dele, perante o olhar incrédulo daquela que julgava ser a sua mais que tudo. Perante isto, só resta perguntar: por onde anda a ERC e para que serve? O que não é uma pergunta, mas duas, e ambas merecem resposta.
MAS, MAIS DO QUE ISTO, é sintomático outro “regresso às origens”: a estreia de uma novela às 19 horas para, certamente, depois ser passada para um dos horários da noite. Já assistimos a este procedimento – que é proveniente de uma estação que, à época, era bastante agressiva. A novela, que ao que dizem é uma coisa divertida – o que é bom para variar das estopadas de novelas que a TVI nos tem impingido ultimamente – estreou na última quarta-feira às tais sete da tarde. Vamos ver se não passa rapidamente para a noite. Caramba, está tudo esquecido? Sete da tarde é horário dos ”Morangos com Açucar”!
COMO SE PERCEBE no bloco final, o “Prós e Contras” assinalou o seu décimo aniversário. Hoje não escreveria sobre ele o que escrevi há 10 anos: não me parece que Júlia Pinheiro tivesse feito melhor que Fátima Campos Ferreira e, por outro lado, reconheço que esta última se prepara para cada programa semanal como a primeira, se calhar, nunca seria capaz de o fazer. E durante 10 anos, melhor ou pior, com maior ou menor controlo da situação, ele lá tem levado o barco a seu porto – qualquer que ele seja. Porque o melhor daquele programa, nunca vos disse, é o anúncio que passa no intervalo. Aquele em que polícias despem a farda e passam a manifestantes e estes vão vestir as fardas dos polícias. O anúncio diz que para defender uma posição é preciso conhecer o outro lado: receio que isso nunca tenha passado, verdadeiramente, do anúncio para o programa.
HÁ 10 ANOS ESCREVIA
«Segui uma boa parte do programa “Prós e Contras”, apresentado por Fátima Campos Ferreira e que não passa, se formos a ver bem, de uma imitação reles de um outro programa da mesma RTP 1 – “Gregos e Troianos”, que tinha a saudosa Júlia Pinheiro no comando das operações. O cenário é o mesmo – tirando uma demão de tinta dada às paredes – os gráficos andam pela mesma, mas, ó diabo!, então não é que falta ali Júlia Pinheiro para animar aquela coisa toda? Quem foi que despediu Júlia Pinheiro por engano, ao que consta, e depois decidiu indigitar Fátima – esta do indigitar saiu-me bem, não saiu? – para tomar conta daquela malta? Ignoro. Mas foi um erro de cálculo. E esse erro de cálculo ficou a dever-se a uma pequena-grande diferença entre as apresentadoras dos dois programas: é que Júlia meteria toda aquela gente na ordem, enquanto Fátima Campos Ferreira se deixa ir naquela onda e interrompe por tudo o que nada, o que aumenta ainda mais a confusão geral. O tema do casino no Parque Mayer até era interessante, mas quem é que conseguiu ouvir alguma coisa? Até Pedro Santana Lopes teve de dar uns berros valentes, para não falar em todos os que, sem maiores rodeios, mandaram Fátima calar-se. Catastrófico. E teria custado pouco fazer aquilo bem melhor.»
(Este bloco respeita a grafia em uso no ano em que foi escrito.)
Crónica publicada no Jornal de Sintra, edição n.º 3954, de 26 de outubro, 2012

