Semanário Regionalista Independente
Terça-feira Junho 28th 2022

ROBIN WILLIAMS: UM VAZIO NO CORAÇÃO

José Jorge Letria

Há há muito quem diga que “Agosto é tempo de desgosto”, pois é neste mês quente do nosso calendário que acontecem as perdas que mais nos magoam. O Brasil tem muitos exemplos disso sobretudo no mundo da política e ainda agora perdeu num acidente de aviação o líder do Partido Socialista Brasileiro, Eduardo Campos, candidato nas eleições presidenciais.
Por cá, Agosto foi o mês da perda de Emídio Rangel, uma das figuras mais marcantes de toda a história da comunicação social em Portugal, em particular pela forma como liderou os projectos da TSF e da SIC e SIC Notícias, sempre com grande espírito inovador e com invulgar sentido de organização e de mobilização. Foi um homem de talento e partiu demasiado cedo, com tanto ainda para poder fazer e dizer sobre a comunicação social em Portugal ou noutras paragens lusófonas.
Mas este mês fica também tragicamente marcado pela morte inesperada e trágica de Robin Williams, de 63 anos, por suicídio, quando tinha três filmes para estrear e tanto ainda para nos dar como genial comediante que tão profundamente marcou as nossas vidas. Nascido numa família de recursos- mãe modelo e pai um grande quadro de uma empresa poderosa-, Robin Williams cresceu tímido e inseguro e foi a “stand up comedy”, num país que tem uma longa e forte tradição neste domínio, que lhe deu asas para voar e para abrir as portas para os estúdios de cinema, onde participou em cerca de meia centena de filmes e viu as suas invulgares capacidades reconhecidas com um “oscar” da Academia. Também foi 12 vezes nomeado para os Globos de Ouro, que ganhou seus vezes, e recebeu o prémio de carreira Cecil B. DeMille.
Confesso que sempre tive por Robin Williams uma admiração sem limite que me fazia rir e chorar com ele e ter a sensação de que, sendo ambos da mesma idade, ele era um rapaz da minha rua, do meu bairro, da minha terra e dos combates da minha juventude. Tudo isso era a mais pura ficção, mas no seu sorriso doce e tantas vezes atormentado eu vislumbrava a grandeza de alma e a aflição existencial de um homem que, sendo genial na representação, nunca conseguiu encontrar as respostas para as grandes dúvidas e inquietações do seu e nosso tempo.
Filmes como “Bom dia, Vietname !”, “O Clube dos Poetas Mortos”, “Despertares”, “O Melhor Pai do Mundo”, “Mrs. Doubtfire”, “O Rei Pescador” ou “O Bom Rebelde”, desempenho que lhe valeu o único “oscar” que recebeu, faziam parte do lote de obras que eu eu recomendava àqueles que procuravam no cinema o conforto espiritual, a alegria e o assombro. Robin Williams foi dos actores que mais vezes vi e voltei a ver, coisa rara em mim, porque nunca me cansava e porque a sua grandeza, bondade, ritmo verbal alucinante e a sua amarga alegria de viver se encaixavam perfeitamente na minha relação com a vida.
Sei que durante muitos anos consumiu álcool em excesso e drogas várias e que, nesta fase da sua vida, lutava contra uma profunda depressão. Nada disso lhe roubou brilho e capacidade de me deslumbrar sempre que pensava nele. Ouvi atentamente o que muita gente nos Estados Unidos e noutros lugares disse a seu respeito na hora da partida e não me recordo de ter encontrado outra perda geradora de tão largo consenso. E, pensando na sua morte, pensei também em duas outras muito recentes: a de James Gandolfini, o talentoso Tony Soprano daquela que terá sido uma das melhores séries de televisão de sempre, e a de Philip Seymor-Hoffman, falecido subitamente, aos 40 e poucos anos, no seu apartamento em Nova York, por excesso de drogas. Ambos tinham ainda décadas de trabalho pela frente mas o corpo em entrou em colapso e privou-nos da sua arte de representar e de nos assombrar. Ainda há poucos dias vi “O Homem Mais Procurado”, filme que Seymor-Hoffman iluminou com o seu talento e apercebi-me de quanto estas perdas nos empobrecem a todos, num tempo de tantas incertezas e perguntas ainda sem resposta. Curvo-me entretanto perante a memória de Lauren Bacall, nome mítico da história do cinema, agora falecida em idade avançada e que deixou uma longa e brilhante carreira cinematográfica para ser sempre evocada, com plena justiça.
Robin Williams decidiu enforcar-se por não suportar mais o peso de uma vida que o desesperava. Foi um final trágico e desnorteante de que levaremos tempo a recuperar. O mundo fica sempre mais pobre quando parte quem nos faz rir e pensar, com invulgar talento, sensibilidade e bom gosto.

Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 4039 de 5 de Setembro de 2014

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